50 Francs–1952–Costa Francesa dos Somalis 500 Francs–1975–Terr. Francês dos Afares e Issas 1000 Francs–1979–Djibuti
- awada
- 11 de jan. de 2022
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Atualizado: 28 de fev.
Referendos, tensões étnicas e independência: O caminho do Djibuti entre 1896–1977.






Estas três cédulas cobrem três períodos distintos de uma mesma nação, desde sua condição colonial até a independência. No final do século XIX, em meio à expansão imperial europeia na chamado “Partilha da África”, a França firmou tratados com chefes e sultões das populações afares e somalis que habitavam a região do Golfo de Tadjoura, no Chifre da África. Embora compartilhassem majoritariamente a religião islâmica, esses grupos possuíam estruturas sociais, linhagens e interesses políticos próprios, historicamente marcados por rivalidades e disputas de poder. Em 1884–1885, a França estabeleceu formalmente o protetorado que mais tarde seria consolidado, em 1896, como Côte Française des Somalis (Costa Francesa dos Somalis), também conhecida como Somalilândia Francesa. A cidade de Djibuti, fundada em 1888, tornou-se o principal centro administrativo e econômico. Sua posição estratégica — na entrada do Mar Vermelho, próxima ao estreito de Bab el-Mandeb — conferia-lhe enorme importância geopolítica, sobretudo após a abertura do Canal de Suez em 1869, pois conectava o Oceano Índico ao Mediterrâneo pelas rotas controladas pelas potências europeias. Em 1958, no contexto da reorganização do império colonial francês promovida pela Quinta República, foi realizado um referendo para decidir se o território permaneceria associado à França ou buscaria a independência — possibilidade que, na prática, poderia abrir caminho para uma união com a recém-formada República da Somália (1960). O resultado oficial favoreceu a permanência sob a administração francesa. O voto dos afares e da população europeia residente foi decisivo, enquanto a maioria dos somalis inclinava-se à independência. Observadores internacionais e setores locais denunciaram irregularidades no processo. Em agosto de 1966, durante visita do então presidente francês, Charles de Gaulle, eclodiram manifestações em Djibuti exigindo autodeterminação. No ano seguinte, em 1967, realizou-se um segundo referendo. Mais uma vez, o resultado oficial indicou preferência pela manutenção dos laços com a França. Novamente, surgiram denúncias de manipulação eleitoral, incluindo deportações e restrições ao registro de eleitores somalis, além de elevado número de votos invalidados em distritos majoritariamente somalis — críticas também ecoadas em debates nas Nações Unidas. Após esse segundo plebiscito, o território foi rebatizado como Territoire Français des Afars et des Issas (Território Francês dos Afares e dos Issas). A mudança buscava refletir oficialmente as duas principais comunidades — sendo os Issas um importante clã somali — e, ao mesmo tempo, equilibrar simbolicamente as tensões políticas internas. Durante a década de 1970, a pressão internacional pela descolonização, o custo estratégico de manter o enclave e as mudanças demográficas tornaram a continuidade do domínio francês cada vez menos viável. Em 8 de maio de 1977 realizou-se o terceiro e decisivo referendo. Desta vez, 99,8% dos votantes optaram pela independência, proclamada em 27 de junho de 1977, dando origem à República do Djibuti. Desde então, a política nacional tem sido marcada pela tentativa de equilibrar o poder entre as duas principais comunidades, a dos somalis (majoritariamente do clã Issa) e a dos afares. O primeiro presidente, Hassan Gouled Aptidon, era issa, e a predominância somali no aparelho de Estado gerou tensões que culminaram em uma guerra civil de baixa intensidade entre 1991 e 1994, envolvendo a Frente para a Restauração da Unidade e da Democracia (FRUD), de base afar. O conflito terminou com acordos de paz e a incorporação de lideranças afares ao governo. Atualmente, sob a presidência de Ismaïl Omar Guelleh, também issa, o Djibuti mantém um delicado arranjo de partilha de poder, com representação afar em cargos ministeriais e administrativos. Embora persistam desigualdades e desconfianças históricas, somalis e afares convivem dentro de um Estado que depende fortemente da estabilidade interna para sustentar sua relevância estratégica internacional — sobretudo como polo militar e logístico em uma das regiões mais sensíveis do comércio marítimo global.


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