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A PRODUÇÃO DAS CÉDULAS DE BANCO – O CASO BRASILEIRO

há 6 dias
5 min de leitura

Da impressão no exterior à Casa da Moeda


A história da produção de papel-moeda no Brasil apresenta uma particularidade interessante para a numismática: durante mais de um século, o país emitiu suas próprias cédulas, mas não as fabricava internamente. As primeiras emissões do Tesouro Nacional remontam ao Império, quando o Brasil ainda não possuía uma estrutura industrial capaz de produzir cédulas com os sofisticados padrões de segurança da época. A Casa da Moeda do Brasil, fundada em 1694, destinava-se originalmente à produção de moedas metálicas. Sua transformação em centro produtor de impressos de segurança ocorreria somente muito mais tarde. Uma exceção ocorreu em 1828, quando foram produzidas no país algumas cédulas destinadas ao recolhimento das moedas de cobre. A produção regular, entretanto, permaneceu no exterior. Entre 1835 e 1869, as cédulas do Tesouro Nacional foram impressas pela empresa inglesa Perkins, Bacon & Petch, de Londres. Essa fase é especialmente interessante para o colecionador: as cédulas eram predominantemente unifaciais e seguiam os padrões gráficos então utilizados na Inglaterra. Em 1870 ocorreu uma mudança fundamental. A American Bank Note Company, de Nova York, passou a imprimir cédulas ao Brasil e rapidamente se tornou a principal fornecedora do Tesouro Nacional. A mudança representou também uma evolução estética e tecnológica. As novas cédulas passaram a apresentar impressão nas duas faces, maior variedade cromática e complexas vinhetas gravadas, características que dificultavam a falsificação. A American Bank Note Company permaneceu como fornecedora exclusiva do Tesouro Nacional durante grande parte do período seguinte, tornando-se uma das empresas mais importantes da história do papel-moeda brasileiro. Exemplares imperiais conservados pelo Museu Imperial confirmam essa origem, identificando a American Bank Note Company, de Nova York, como impressora de diversas cédulas de 1.000 e 2.000 réis.


Com a Proclamação da República, em 1889, a dependência de fornecedores estrangeiros não desapareceu. Ao contrário, as primeiras emissões republicanas continuaram recorrendo à infraestrutura gráfica da American Bank Note Company. Algumas cédulas chegaram a aproveitar desenhos e vinhetas anteriormente empregados em emissões imperiais, substituindo símbolos relacionados à monarquia por elementos compatíveis com o novo regime. Durante o período de pluralidade de bancos emissores, entre 1888 e 1892, também surgiram cédulas emitidas por instituições bancárias privadas. Essas emissões constituem um capítulo à parte da história monetária brasileira, pois não se confundem com as cédulas do Tesouro Nacional.


No século XX, a dependência estrangeira continuou. Além da American Bank Note Company, outra grande empresa internacional passou a desempenhar papel importante: a britânica Thomas de La Rue & Company Limited. A presença simultânea das duas empresas pode ser observada em diferentes emissões brasileiras, criando variedades particularmente interessantes para a numismática. Um exemplo emblemático encontra-se nas cédulas do primeiro Cruzeiro. A primeira estampa foi produzida pela American Bank Note Company, enquanto uma segunda estampa, com modificações, foi encomendada à Thomas de La Rue. Posteriormente, a produção passou progressivamente para a Casa da Moeda do Brasil. Essa transição tornou-se particularmente importante a partir da década de 1960. Embora a Casa da Moeda já existisse havia séculos, a fabricação regular de cédulas em território brasileiro somente se consolidou nesse período. A chamada “Cédula do Índio”, de Cr$ 5,00, lançada em 1961, é considerada um marco da moderna produção brasileira de papel-moeda. O avanço foi resultado de investimentos destinados a modernizar e reequipar a instituição. Em 1964, a Casa da Moeda deixou de ser uma autarquia e passou à condição de empresa pública. Nos anos seguintes, o parque industrial foi ampliado para que o Brasil alcançasse maior autonomia na fabricação de seu próprio meio circulante. A transição, entretanto, não ocorreu de maneira instantânea. Durante a implantação do Cruzeiro Novo, em 1967, ainda circulavam cédulas antigas produzidas pela American Bank Note Company e pela Thomas de La Rue, algumas delas simplesmente adaptadas mediante carimbos com os novos valores. O próprio Banco Central registra, por exemplo, cédulas de 10 cruzeiros novos produzidas tanto pela American Bank Note Company quanto pela Thomas de La Rue.


Enquanto isso, os investimentos realizados na Casa da Moeda preparavam a produção nacional das novas cédulas. A partir de 1970, o Brasil passou a colocar em circulação novas séries produzidas pela própria Casa da Moeda, consolidando a autonomia industrial brasileira. Esse processo também modificou o significado da inscrição do fabricante para o colecionador. Nas cédulas mais antigas, a identificação de empresas como American Bank Note Company ou Thomas de La Rue revela que o exemplar foi fabricado no exterior. Nas emissões posteriores, a identificação da Casa da Moeda indica produção nacional.


A mudança não significou, contudo, que o Brasil jamais utilizasse fornecedores externos novamente. Em determinados momentos, necessidades de produção, características técnicas ou demandas extraordinárias podem levar bancos centrais a recorrer a fornecedores internacionais. Foi justamente o que aconteceu em 2016. Em setembro daquele ano a Medida Provisória nº 745 autorizou excepcionalmente o Banco Central do Brasil a adquirir cédulas e moedas fabricadas no exterior, quando a Casa da Moeda não pudesse garantir o atendimento da demanda ou do cronograma de abastecimento. Foi com base nesse novo instrumento legal que, ainda naquele ano, o Banco Central contratou a sueca Crane AB para produzir cerca de 102 milhões de cédulas de R$ 2,00, que entrariam em circulação no início de 2017. Essa é uma passagem especialmente interessante porque marcou na prática a primeira grande quebra da dependência exclusiva do Banco Central em relação à Casa da Moeda desde a consolidação da produção nacional de cédulas.

 

Por isso, é importante distinguir emissão de fabricação. A autoridade monetária brasileira — o Banco Central — é responsável pela emissão do meio circulante, enquanto a Casa da Moeda atua na fabricação física das cédulas. A emissão envolve as etapas de estimar a necessidade de numerário; a programação de produção; a autorização da fabricação; o recebimento e custódia do numerário recebido; a distribuição e colocação do dinheiro em circulação; o recolhimento e substituição das cédulas inadequadas; e finalmente; o controle da autenticidade e da qualidade do dinheiro em circulação. Do lado da fabricação, a Casa da Moeda possui atualmente uma unidade industrial no Rio de Janeiro especificamente destinada à impressão das cédulas do meio circulante nacional.


Esta estrutura atual permite ao Brasil controlar internamente todas as etapas consideradas estratégicas da soberania monetária. Os números contemporâneos ajudam a dimensionar essa operação. Para 2026, o Banco Central prevê a produção de centenas de milhões de cédulas, distribuídas entre as denominações de R$ 2, R$ 5, R$ 10, R$ 20, R$ 50, R$ 100 e R$ 200. Somadas, as quantidades contratadas para essas denominações chegam a mais de 1,16 bilhão de cédulas.


A trajetória brasileira, portanto, reproduz em escala nacional a transformação observada no mundo. Primeiro, o Estado dependeu de empresas privadas estrangeiras especializadas. Depois, desenvolveu capacidade industrial própria. Finalmente, passou a dominar não apenas a emissão, mas também boa parte da complexa tecnologia necessária à fabricação do dinheiro. Para a numismática, essa evolução acrescenta uma informação preciosa à análise de cada exemplar. Uma cédula brasileira não conta apenas a história da moeda, do personagem retratado ou do período político em que circulou. Ela também revela, através de seu fabricante, uma parte da história industrial do país. Uma cédula imperial produzida em Londres pela Perkins, Bacon & Petch, outra fabricada em Nova York pela American Bank Note Company e uma cédula moderna produzida pela Casa da Moeda do Brasil pertencem, portanto, a momentos distintos de uma mesma história. É a história da passagem do Brasil de consumidor de tecnologia estrangeira para produtor de seu próprio dinheiro.

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