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500 Meticais – 1991 – Moçambique

  • awada
  • 30 de out. de 2021
  • 2 min de leitura

Atualizado: 16 de fev.

Metical: A moeda que nasceu das cinzas do colonialismo.



Muito depois de as colônias britânicas e francesas na África terem conquistado sua independência, Portugal ainda mantinha, no início da década de 1970, suas possessões em Moçambique, Angola, Guiné Portuguesa, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe. Em Moçambique, a resistência ao domínio português, ao longo da segunda metade do século XX, surgiu por meio de diferentes movimentos, inicialmente dispersos e sem coordenação efetiva. Esse cenário mudou em 1962, quando três das principais organizações nacionalistas decidiram unir forças e fundaram a Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO). A partir daí, a luta pela independência ganhou direção estratégica e maior coesão. Em 1974, a FRELIMO já controlava cerca de um quinto do território moçambicano e enfrentava um exército português cada vez mais desmoralizado. A guerra parecia caminhar para uma vitória lenta e custosa — até que um fato inesperado acelerou o desfecho. Em abril de 1974, um levante militar em Portugal pôs fim à ditadura do Estado Novo. A chamada Revolução dos Cravos foi liderada por oficiais insatisfeitos com a condução da guerra colonial e com o desgaste humano e econômico do conflito. O novo governo português iniciou rapidamente negociações com a FRELIMO, culminando no Acordo de Lusaca e na proclamação da independência de Moçambique em 25 de junho de 1975. O acordo previa, entre outras medidas, a criação de um banco central moçambicano, para o qual seriam transferidos os ativos do Banco Nacional Ultramarino, instituição que operava na colônia desde 1877. Nascia assim o Banco de Moçambique. Durante cinco anos, contudo, a nova instituição continuou a utilizar a antiga moeda colonial — o escudo — como solução provisória. Foi apenas em 1980 que o Banco de Moçambique anunciou a introdução de uma nova moeda, rompendo simbolicamente com o passado colonial. A nova unidade monetária recebeu o nome de metical. O termo remete ao “mithqal”, antiga unidade de peso em ouro — equivalente a cerca de 4,83 gramas — utilizada no comércio com mercadores árabes muito antes da chegada dos portugueses à costa do Índico. Ao adotar o nome, Moçambique recuperava uma referência histórica anterior à colonização europeia, reafirmando uma identidade própria. Um ano após a introdução do metical, realizou-se o inusitado “funeral” do escudo colonial. Parte das antigas cédulas ainda guardadas nos cofres do Banco de Moçambique foi colocada em um caixão branco. Funcionários do banco organizaram um cortejo fúnebre a pé até as fornalhas de uma metalúrgica, onde o caixão e cerca de 36 milhões de escudos foram incinerados. Segundo relatos da época, “foi a primeira vez que houve um funeral em que todos estavam felizes”. E convenhamos: poucos países puderam dizer que enterraram oficialmente o passado — com direito a caixão, procissão e cremação coletiva do dinheiro. Em Moçambique, o escudo até teve velório, mas quem saiu rico mesmo dessa história foi o metical, que nasceu literalmente das cinzas — provando que, às vezes, para mudar de vida, é preciso começar fazendo um bom enterro.

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