500 Francs/Amafranga – 1980 – Burundi
- awada
- 29 de out. de 2021
- 2 min de leitura
Atualizado: 16 de fev.
Entre hutus e tutsis: A construção histórica de uma divisão.


No Burundi, pequeno país situado na região dos Grandes Lagos da África Central, cerca de 85% da população é hutu, aproximadamente 14% são tutsi e menos de 1% pertencem ao grupo twa. Ao longo do século XX, essa composição demográfica tornou-se o eixo em torno do qual gravitaram profundas crises políticas e sociais. Em 1885, durante a Conferência de Berlim, o território que hoje corresponde a Burundi foi incorporado ao Império Alemão. A administração colonial alemã reforçou estruturas de poder já existentes, nas quais chefias associadas aos tutsis ocupavam posições de destaque. Após a Primeira Guerra Mundial, a Alemanha perdeu suas colônias, e Burundi passou ao controle da Bélgica, integrado ao território de Ruanda-Urundi sob mandato da Liga das Nações. A política belga aprofundou a estratificação social, institucionalizando distinções identitárias e consolidando privilégios administrativos e educacionais para a minoria tutsi. Com a independência de Burundi e de Ruanda em 1962, a retirada da tutela colonial não significou estabilidade. Pelo contrário, os ressentimentos acumulados durante décadas emergiram com força. A disputa pelo controle do Estado transformou-se em sucessivos ciclos de violência: massacres em 1972, nova onda de assassinatos em 1993, golpes de Estado e repressões que custaram centenas de milhares de vidas ao longo das décadas. Em Ruanda, a radicalização culminaria no genocídio de 1994; em Burundi, a violência assumiu formas intermitentes, mas igualmente devastadoras. Mas qual é, afinal, a origem dessa rivalidade? Estudos históricos indicam que os hutus se estabeleceram na região dos Grandes Lagos entre aproximadamente 500 e 1.000 a.C., desenvolvendo sociedades essencialmente agrícolas. Já os tutsis, tradicionalmente associados à criação de gado, teriam migrado para a região séculos mais tarde. Ao longo do tempo, ambos os grupos compartilharam a língua kirundi, crenças e práticas culturais, estabelecendo relações sociais complexas e, muitas vezes, interdependentes. Originalmente, as distinções eram mais socioeconômicas do que propriamente “raciais” ou étnicas. A posse de gado — símbolo de riqueza e prestígio — conferia poder aos tutsis em muitos contextos. Contudo, foi a administração colonial que cristalizou essas diferenças, transformando categorias sociais flexíveis em identidades rígidas, registradas em documentos oficiais e exploradas politicamente. O que antes era uma hierarquia social dinâmica tornou-se uma divisão identitária fixa. Os genocídios de 1972 e 1993 em Burundi — assim como o de 1994 em Ruanda — não surgiram de um ódio ancestral inevitável, mas da manipulação política dessas identidades, combinada à disputa pelo poder do Estado. A violência foi, em grande parte, produto de estruturas coloniais herdadas, elites armadas e lideranças que instrumentalizaram o medo para governar.


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