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500 Francs – 1942 – França

  • awada
  • 13 de jul. de 2023
  • 2 min de leitura

Atualizado: 25 de mar.

Paz: Um conceito nem sempre ligado à ausência de guerras.




Esta cédula apresenta a alegoria feminina de Pax — a personificação romana da paz — segurando um ramo de oliveira, símbolo clássico de conciliação. A ironia histórica é evidente: ela circulou na França justamente entre 1940 e 1945, um dos períodos mais turbulentos de sua história, marcado pela ocupação alemã e pelos horrores da Segunda Guerra Mundial. Pax era a deusa romana da paz, derivada de sua equivalente grega, Irene, filha de Zeus e Themis. A religião romana, sobretudo em seus primórdios, incorporou amplamente o panteão grego, adaptando divindades conforme seus próprios valores e necessidades. Assim, figuras como Marte (Ares para os gregos) e Juno (Hera) ganharam destaque por se alinharem ao espírito romano de disciplina, conquista e pragmatismo. Nesse contexto, Pax ocupava um papel secundário. Para os romanos, a paz não era concebida como a simples ausência de guerra, mas como o resultado direto dela — um estado alcançado por meio da vitória e da submissão do inimigo. A própria palavra latina pax está ligada à ideia de acordo ou pacto (pacisci), indicando uma paz imposta, mais próxima de uma rendição ou aliança sob domínio romano do que de um ideal de harmonia universal. Foi durante o governo de Augusto que o culto a Pax ganhou maior relevância. Após décadas de guerras civis que marcaram o fim da República, Augusto utilizou sua imagem como instrumento político para simbolizar estabilidade e ordem. Um dos marcos desse projeto foi a construção da Ara Pacis, no Campo de Marte, altar dedicado à paz e à prosperidade do Império. Ele celebrava o início da chamada Pax Romana, um longo período de relativa estabilidade que, embora frequentemente descrito como uma “era de ouro”, foi sustentado por campanhas militares constantes e pela manutenção de um vasto domínio territorial. A presença de Pax em uma cédula emitida em plena guerra evidencia o poder simbólico da alegoria: mais do que refletir a realidade, ela expressa um ideal, uma aspiração coletiva. Assim como no tempo de Augusto, a paz representada não descreve necessariamente o presente, mas projeta um desejo — quase uma promessa — de ordem futura. Ao estampar a deusa da paz em meio ao conflito, a cédula francesa de 1942 revela como as nações recorrem à iconografia alegórica não apenas para narrar sua história, mas para afirmar valores, reforçar identidades e, sobretudo, sustentar a esperança mesmo nos momentos mais sombrios.

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