500 e 1.000 Bipkwele – 1979 – Guiné Equatorial
- awada
- 1 de jun. de 2022
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Atualizado: há 3 dias
Rei Uganda e Rei Bioko: Reis tribais que enfrentaram o colonialismo europeu na África.




Após a independência da Espanha ocorrida em 1968, o novo Estado da Guiné Equatorial teve como seu primeiro presidente Francisco Macías Nguema, cujo regime autoritário desenvolveu um forte culto à personalidade. As emissões monetárias durante esse período passaram a trazer o retrato do próprio presidente, transformando as cédulas em instrumentos de propaganda política e de afirmação do poder do regime. Essa situação mudou drasticamente em 1979, quando Macías foi deposto por um golpe de Estado liderado por seu sobrinho, Teodoro Obiang. A queda do antigo governante abriu espaço para uma redefinição simbólica na iconografia oficial do país, quando as novas cédulas passaram a destacar figuras históricas locais em substituição a imagem do antigo líder. Neste contexto surgiram os personagens retratados nas cédulas acima – Rei Bioko e Rei Uganda. Rei Bioko foi um líder histórico associado ao povo bubi, habitantes originários da ilha Bioko, e que viveu entre o final do século XIX e meados do século XX. Embora ele nunca tenha reinado como tal, mas sim como irmão do rei Malabo I, seu nome foi usado pelo ditador Francisco Macías para mudar o nome da então ilha de Fernando Pó, nome que homenageava o primeiro europeu a aportar em suas praias - o navegador português Fernando Pó, para ilha Bioko. O Rei Uganda (c.1845-1960) foi o último rei da ilha de Corisco do povo dos bengas e um dos primeiros líderes independistas da Guiné Equatorial. As ilhas Bioko e Corisco, partes integrantes do território da Guiné Equatorial, estão localizadas a 160km e 29 km respectivamente da sua costa. É interessante notar que as etnias predominantes nestas duas ilhas não compõe o principal grupo étnico da Guiné Equatorial que são os fangs com 85,7% da população. Os bubis representam 6,5% e os bengas 3,6%. Ao retratar esses personagens nas suas cédulas, que estiveram direta ou indiretamente ligados a luta contra o colonialismo espanhol, o governo guinéu-equatoriano procurava valorizar lideranças africanas tradicionais e reforçar uma narrativa histórica anterior à presença europeia. Sua presença tinha portanto um papel simbólico na afirmação de continuidade entre o passado tradicional da região e o Estado moderno que emergira após a independência. E, ao incorporar figuras históricas locais à circulação monetária, o governo transformava objetos cotidianos — como o dinheiro — em instrumentos de afirmação cultural e política.


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