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50 Pesos – 2015 – Argentina

20 de fev. de 2021
3 min de leitura

Atualizado: 12 de out.

Uma história controvertida: de um lado, herói nacional; de outro, assassino sanguinário!




A cédula acima integra a série temática intitulada "Islas Malvinas. Um amor soberano", lançada em março de 2015 pelo Banco Central da República Argentina. Seu objetivo declarado era homenagear a defesa da soberania nacional sobre as ilhas Malvinas, Geórgia do Sul, Sandwich do Sul e os espaços marítimos circundantes do Atlântico Sul. Isto fica evidente com a expressão vista em seu anverso que pode ser traduzida livremente como: "Nenhum solo da Pátria é mais querido em toda a sua extensão." Esta mensagem não se limita à valorização geográfica das ilhas. Ela associa o território à memória coletiva, ao sentimento de pertencimento e à reivindicação argentina de soberania. O significado da frase fica ainda mais visível ao observarmos os demais elementos da cédula. O mapa das ilhas coloca a reivindicação territorial no centro da composição, tornando-a o principal tema da emissão. O mapa da América Latina e do Caribe, acompanhado da expressão "Causa Regional", procura associar a questão das Malvinas à solidariedade latino-americana. O farol simboliza a orientação e a esperança de uma recuperação pacífica da soberania. E finalmente, o gaúcho Antonio Rivero, no reverso, representa a resistência argentina no século XIX à presença britânica nas ilhas, já que desde 1833 as ilhas Malvinas estão sob administração britânica sob a denominação de Falklands. Em 1982, os dois países chegaram a travar uma guerra pelo arquipélago, encerrada em 14 de junho daquele mesmo ano com a rendição das forças argentinas. A emissão de 2015, portanto, não é apenas uma homenagem geográfica ou histórica: ela reafirma uma reivindicação nacional que permanece aberta no campo diplomático. A questão também possui dimensão internacional, com as Nações Unidas reconhecendo a existência de uma disputa de soberania e defendendo sua solução por meios pacíficos e negociações. Já o reverso da cédula nos conta uma história mais controversa. Antonio Rivero (1808–1845), também conhecido como Gaúcho Rivero, tornou-se uma figura de realce na história argentina ao liderar, em 26 de agosto de 1833, uma rebelião contra o domínio britânico no assentamento de Port Louis, no nordeste da Ilha Malvina Oriental. Esse episódio ocorreu poucos meses após a retomada das ilhas pelo Reino Unido, quando a soberania do arquipélago ainda era um tema incerto e disputado. Na Argentina, Rivero foi posteriormente elevado à condição de herói popular e símbolo de resistência nacional. Entretanto, a realidade histórica do levante é mais complexa e sombria. Rivero e outros gaúchos assassinaram cinco líderes do assentamento local — entre eles administradores e colonos ligados à autoridade britânica — em um episódio que ficou conhecido na historiografia britânica como os “Assassinatos de Port Louis”. A rebelião não teve um caráter militar organizado nem contou com apoio estatal argentino direto, sendo interpretada por alguns historiadores mais como um motim social e econômico do que como um levante nacionalista estruturado. Capturado posteriormente pelo comandante de um navio de guerra britânico, Rivero foi enviado a Londres. Contudo, não pôde ser julgado, pois, à época, o Tribunal da Coroa Britânica reconheceu não possuir jurisdição formal sobre as ilhas. Ele acabou sendo deportado para o Rio de Janeiro e, mais tarde, retornou à região do Rio da Prata, desaparecendo gradualmente dos registros históricos. Em sua homenagem, entre 2011 e 2012, todas as legislaturas das províncias argentinas banhadas pelo Oceano Atlântico sancionaram a chamada Lei Antonio Rivero, que proíbe a atracação, amarração e abastecimento, em seus portos, de navios com a bandeira das Ilhas Falkland, do Reino Unido ou de outras colônias britânicas. Já em 2013, um plebiscito realizado entre os habitantes das ilhas resultou em 99,8% dos votantes favoráveis à permanência do território sob soberania britânica. A cédula retrata Antonio Rivero a cavalo, empunhando a bandeira argentina, tendo ao fundo o cemitério argentino de Darwin e o cruzador leve General Belgrano, afundado pela Marinha britânica durante a Guerra das Malvinas, em 1982. Ao reunir símbolos de rebeldia, memória dos mortos e perdas militares, a cédula evidencia como a disputa entre Argentina e Grã-Bretanha extrapola o campo jurídico e territorial, tornando-se um embate de narrativas, identidades e memórias nacionais. Assim as ilhas Malvinas/Falkland permanecem ainda hoje como uma ferida histórica aberta, na qual cada lado reivindica legitimidade, enquanto o diálogo político segue eclipsado por símbolos, ressentimentos e versões opostas do seu passado.

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