5 Angolares – 1947 – Angola
Atualizado: há 4 dias
"Proclamo neste lugar sagrado da pátria a unidade indestrutível e eterna de Portugal d'Aquem e d'Alem-Mar". (General Oscar Carmona)


A expressão acima, vista no reverso da cédula e assinada pelo General Carmona, possui raízes históricas profundas que remontam à expansão marítima, quando os reis portugueses se intitulavam "Reis de Portugal e dos Algarves, d'Aquém e d'Além-Mar em África". No contexto do século XX, sob o regime do Estado Novo que perdurou entre 1926 e 1974, a frase servia para afirmar que as colônias ultramarinas não eram meras possessões ou territórios dominados, mas sim partes integrantes e indissociáveis do próprio território português. O regime tentava passar a ideia de que o Minho, Lisboa, Angola ou Moçambique eram juridicamente e culturalmente a mesma nação espacialmente descontínua. Ao carimbar a união como "indestrutível e eterna", ela enviava um recado geopolítico claro em uma época em que o cenário internacional pós-Segunda Guerra Mundial começava a pressionar as potências europeias pela descolonização. A mensagem reafirmava a inflexibilidade do Estado Novo em negociar qualquer transição para a independência dos territórios africanos, tratando a soberania colonial como algo sagrado, absoluto e imutável. Em 1938 o General Carmona, então presidente de Portugal, escolheu um local altamente simbólico na margem angolana da foz do Rio Zaire, para erguer um monumento com a gravação acima reafirmando este princípio. Foi justamente neste local, na chamada Ponta do Padrão, que o navegador Diogo Cão desembarcou em 1482 e fincou o primeiro padrão de pedra em 1483 — o Padrão de São Jorge —, marcando o contacto inicial entre Portugal e o Reino do Congo. Ao chamar o local de "lugar sagrado da pátria", Carmona tentava sacralizar a história colonial, utilizando o ponto de origem do império para legitimar a sua permanência perpétua e justificar a narrativa mítica do "destino imperial" português. O império colonial Português foi o primeiro projeto expansionista ultramarino de escala verdadeiramente global, sendo também o mais longevo entre os impérios europeus modernos. Seu início é geralmente associado à Conquista de Ceuta, em 1415, marco das navegações atlânticas. A partir daí, os portugueses estabeleceram uma vasta rede de feitorias, fortalezas e colônias, que se estendia da costa ocidental da África ao Golfo Pérsico, da Índia ao Sudeste Asiático, além de grande parte do litoral sul-americano. Essa expansão resultou, ao longo dos séculos, na presença portuguesa em territórios que hoje pertencem a mais de 50 países, testemunhando a amplitude do seu alcance marítimo. Diversos fatores impulsionaram esse expansionismo: a busca por rotas comerciais alternativas ao Mediterrâneo; o interesse pelo ouro e pelo comércio de escravizados na África Ocidental; a competição com outras potências ibéricas e, posteriormente, com holandeses e ingleses; além da difusão religiosa através das ordens missionárias. A política ultramarina oscilou entre momentos de hegemonia e períodos de retração, especialmente após a União Ibérica e durante as investidas holandesas no século XVII. Ainda assim, Portugal conseguiu manter núcleos estratégicos como Angola, Moçambique, Goa, Timor e Macau até o século XX. Embora a expressão “Império Português” seja amplamente utilizada na historiografia, Portugal jamais se autodenominou oficialmente como “Império”, nem durante a monarquia, nem durante a república. O termo predominante era “Ultramar”, reforçando a ideia de continuidade territorial entre metrópole e colônias, narrativa que o Estado Novo intensificou para legitimar a manutenção do domínio colonial até as guerras de independência africanas e, finalmente, até a devolução de Macau à China, em 1999, último elo do antigo sistema expansivo português.

