5.000 Francs – 1992 – Benin
- awada
- 10 de out. de 2021
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Atualizado: 9 de fev.
Agudás: Uma história de ida, volta e permanência entre o Benin e o Brasil.


Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe são os países africanos de língua portuguesa. No entanto, há uma outra nação africana não lusófona que mantém laços históricos e culturais profundos com o Brasil: o Benin. Essa ligação remonta a séculos atrás, ao período áureo do tráfico transatlântico de escravizados entre a África e o Brasil. Um dos menores países do continente africano, o Benin correspondia, à época, em grande parte, ao Reino de Daomé, situado na região então conhecida como Costa dos Escravos. O reino tornou-se um importante centro de comércio de cativos, envolvendo negociantes africanos, europeus e luso-brasileiros, com destaque para os portos de Uidá e Porto Novo. Dali partiram milhares de africanos destinados às plantações e cidades do Brasil colonial. Entretanto, como se poderia imaginar à primeira vista, o processo da escravidão não foi uma via de mão única — da África para o Brasil. Muitos africanos escravizados acabaram retornando à sua terra natal, principalmente de duas formas distintas. Em 1835, eclodiu na Bahia a Revolta dos Malês, o maior levante urbano de escravizados da história do Brasil. Após a derrota do movimento, parte significativa de seus participantes foi deportada para a África, tendo Porto Novo, atual capital política do Benin, como um de seus principais destinos. Outro grupo relevante foi o dos chamados escravos de ganho — pessoas escravizadas que realizavam trabalhos urbanos remunerados para seus senhores e que, com o tempo, conseguiam acumular recursos para comprar sua própria alforria. Muitos desses libertos optaram por retornar voluntariamente à África, estabelecendo-se sobretudo na cidade de Uidá. Passaram a ser conhecidos como Agudás, ou “brasileiros”, denominação que ainda hoje carrega forte significado cultural no país. Ao regressarem, os Agudás levaram consigo diversos elementos da cultura brasileira: festas religiosas, estilos de vestimenta, práticas culinárias e formas de sociabilidade urbana. A língua portuguesa, contudo, não se manteve como idioma principal, já que o antigo Daomé foi colonizado pela França no final do século XIX e adotou o francês como língua oficial. Ainda assim, os descendentes dos Agudás preservaram algumas palavras e expressões do português, além de mais de 400 sobrenomes de origem luso-brasileira, geralmente herdados de seus antigos senhores. Estima-se que entre 5% e 10% da atual população beninense — hoje em torno de 10 milhões de habitantes — seja descendente desses africanos que retornaram do Brasil. Não surpreende, portanto, que em Porto Novo exista uma celebração dedicada ao Senhor do Bonfim, ou que haja uma dança folclórica chamada burrinha, com semelhanças claras ao bumba-meu-boi brasileiro. Pratos como o sarapatel também podem ser encontrados na culinária local. Além disso, persistem os chamados “bairros brasileiros”, marcados por uma arquitetura de inspiração portuguesa, com sobrados, varandas e fachadas ornamentadas. A importância histórica dos Agudás também foi reconhecida no Brasil. Em 2003, a escola de samba Unidos da Tijuca levou essa história à Marquês de Sapucaí com o enredo “Agudás, os que levaram a África no coração e trouxeram para o coração da África o Brasil”, celebrando esse raro e poderoso movimento de retorno, memória e troca cultural entre os dois lados do Atlântico.


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