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20 Francs – 1950-60 – São Pedro e Miquelão

  • awada
  • 10 de jan. de 2022
  • 2 min de leitura

Atualizado: 26 de fev.

O pequeno arquipélago que flutuou em um mar de uísque durante a Lei Seca Americana.



Último vestígio do outrora vasto império colonial francês na América do Norte, o arquipélago de São Pedro e Miquelão sempre teve sua história moldada pelo mar. Pequenas, frias e frequentemente envoltas por nevoeiros, as ilhas são varridas pelos ventos do Atlântico Norte e, por séculos, sua economia esteve intimamente ligada à pesca — sobretudo à do bacalhau, que sustentou gerações de ilhéus. Situadas a meio caminho entre Nova York e a Groenlândia, e muito mais próximas de icebergs do que dos bares clandestinos das grandes cidades americanas, as ilhas pareciam destinadas a uma existência discreta. No entanto, foi justamente sua posição geográfica e seu status político singular que as colocaram no centro de um dos capítulos mais curiosos do século XX: a Lei Seca nos Estados Unidos. Antes da proibição, entre 1911 e 1918, o arquipélago importara modestos 98.500 litros de bebidas alcoólicas. Mas, após a entrada em vigor da Lei Seca em 1920, que proibiu a produção, importação e venda de álcool nos Estados Unidos, a situação mudou drasticamente. Em pouco mais de uma década, mais de 4 milhões de litros apenas de uísque passaram a abarrotar os armazéns locais, acompanhados por centenas de milhares de caixas de vinho, champanhe, conhaque e rum. Vindas da Europa, do Canadá e do Caribe, essas bebidas eram rapidamente reenviadas em navios de contrabandistas rumo ao sul, abastecendo a persistente demanda americana por álcool. No início, o Canadá desempenhou papel importante nesse abastecimento informal. Contudo, quando as autoridades canadenses endureceram o controle sobre o contrabando em sua fronteira, os habitantes de São Pedro e Miquelão assumiram protagonismo. Beneficiando-se de seu status de território francês — e do fato de que a França, ao contrário do Reino Unido e do Canadá, se recusou a aderir a acordos que restringissem a exportação de bebidas aos Estados Unidos —, os ilhéus transformaram o arquipélago em um entreposto estratégico do comércio ilícito. O fim da Lei Seca, em 1933, marcou também o fim desse breve período de prosperidade extraordinária. Para as ilhas, foi um choque econômico profundo: a súbita interrupção do fluxo de bebidas significou o colapso de uma atividade altamente lucrativa. Seguiu-se uma dura ressaca financeira. Muitos habitantes emigraram, enquanto outros retornaram à tradicional pesca do bacalhau, retomando a vocação histórica do arquipélago. Hoje, quem visita São Pedro e Miquelão encontra não apenas paisagens austeras e um modo de vida marcado pelo mar, mas também as memórias de uma década singular, em que essas pequenas ilhas francesas desempenharam um papel inesperado no abastecimento da “sede proibida” dos Estados Unidos.

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