top of page

100/500/1.000 Francs – 1960-2004 – Comores

  • awada
  • 23 de out. de 2021
  • 3 min de leitura

Atualizado: há 4 dias

Comores: Entre golpes de Estado e tradições seculares.



O arquipélago de Comores, localizado na costa da África Oriental, entre Moçambique, no continente, e a ilha de Madagascar, no Oceano Índico, foi durante séculos uma passagem estratégica para o comércio entre a África Oriental e a Ásia. Constituído por quatro ilhas — Grande Comore, Mohéli, Anjouan e Maiote — e habitado por uma população majoritariamente muçulmana de origens árabes e africanas, o arquipélago integrou o Império Colonial Francês desde o final do século XIX até 1975. Naquele ano, três das ilhas declararam unilateralmente sua independência, formando a União das Comores. A ilha de Maiote, porém, optou por permanecer sob administração francesa após um referendo popular, tornando-se posteriormente um departamento ultramarino da França. Apesar do governo comoriano reivindicar a soberania sobre Maiote, a França tem bloqueado no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas qualquer resolução que trate do assunto. Os desafios geopolíticos, entretanto, não são o único problema desse paraíso tropical. Em 1997, as ilhas de Mohéli e Anjouan também proclamaram sua própria independência. Apesar das tentativas militares do governo central para sufocar o movimento e dos esforços de mediação de organizações internacionais, o separatismo persistiu por vários anos. Para tentar encerrar os ciclos de instabilidade — que renderam ao país o apelido de “Coup-Coup Islands” (Ilhas Golpe-Golpe) — foi promulgada em 2001 uma nova constituição, baseada em um sistema de forte autonomia insular e alternância de poder entre as ilhas. Ainda assim, a história política recente das Comores permanece marcada por instabilidade. Em menos de meio século de independência, o país testemunhou mais de vinte golpes de Estado ou tentativas de golpe, com vários chefes de Estado assassinados. O primeiro ocorreu menos de um mês após a independência. Mesmo o delicado sistema de compartilhamento de poder esteve ameaçado em 2007, quando o governo central tentou adiar as eleições na ilha de Anjouan devido a episódios de violência e denúncias de intimidação de eleitores. Diante da recusa do governo local em aceitar o adiamento, forças da União Africana intervieram em 2008, ocupando a ilha e forçando a fuga de seu presidente. Em 2019, para reforçar a reputação turbulenta do país, o presidente comoriano sobreviveu a uma tentativa de assassinato. Mas não é apenas na política que as Comores chamam a atenção. A vida social das ilhas guarda uma peculiaridade: a existência legal de dois tipos distintos de casamento. O primeiro é o pequeno casamento, conhecido como Mna Daho ou Petit-Mariage. Trata-se de uma união simples, íntima e de baixo custo, na qual o dote da noiva — geralmente composto por pequenas quantias em dinheiro e presentes — é modesto. Um homem pode realizar vários casamentos desse tipo ao longo da vida, frequentemente com mulheres de condição social mais baixa. O segundo é o casamento tradicional, chamado Ada ou Grand-Mariage, normalmente celebrado apenas uma vez na vida. Caracteriza-se pelo uso de elaboradas joias de ouro, cerca de duas semanas de festividades e um dote nupcial elevado. Embora as despesas sejam divididas entre as famílias, o custo total pode chegar ao equivalente a 75 mil dólares. Após a cerimônia, o status social do homem aumenta significativamente, marcando sua passagem da condição de “jovem” para a de ancião ou membro respeitado da comunidade. Ele passa a ter o direito de falar em público, participar das decisões políticas da ilha e exibir seu novo status vestindo um mharuma — um tipo de xale usado sobre os ombros. Também pode entrar na mesquita pela porta reservada aos anciãos e ocupar os lugares de honra. A posição social da mulher também se fortalece, ainda que de forma menos formal. Em uma sociedade com traços de herança matrilinear, elas exercem influência relevante na estrutura familiar e comunitária. Essa importância feminina se reflete inclusive no dinheiro em circulação no país, onde mulheres aparecem com frequência nas cédulas, como ilustram os exemplos acima.

Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação
bottom of page