100 Won – 1947 – Coréia 1.000 Won – 1950 – Coréia do Sul
- awada
- 1 de set. de 2021
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Atualizado: há 6 dias
Moeda em guerra: As cédulas coreanas do início do conflito.




Estas duas cédulas muito parecidas retratam o filósofo e erudito confucionista Yi Hwang (1501–1570), também conhecido como Toegye, um dos mais importantes pensadores do neo-confucionismo durante a Dinastia Joseon (1392-1910). A presença dessa figura histórica nestas cédulas tinha um significado simbólico: Yi Hwang era amplamente respeitado por todos os coreanos e representava a tradição cultural e intelectual do país. A cédula de 100 won foi emitida em 1947 pelo Bank of Joseon, banco estabelecido em 1910 pelo governo colonial japonês e que após a libertação da Coreia do domínio japonês ficou sob administração do exército americano. Já a cédula de 1.000 won foi emitida em 1950 pela Coréia do Norte no início da Guerra da Coréia para circular nas áreas da Coréia do Sul ocupadas por suas tropas. Essa segunda emissão tinha caráter estratégico: buscava substituir ou desestabilizar a moeda sul-coreana, financiar as operações militares norte-coreanas nas regiões ocupadas e facilitar a aceitação da nova moeda entre a população local ao utilizar uma figura culturalmente reverenciada, evitando símbolos ideológicos que pudessem gerar rejeição. A história deste conflito remonta à ocupação da Coreia pelo Japão entre 1910 e 1945. Quando a Segunda Guerra Mundial chegou ao fim e as potências aliadas começaram a desmantelar o Império Japonês, o destino da Coreia tornou-se uma questão geopolítica entre os Estados Unidos e a União Soviética. Os ex-aliados não confiavam um no outro e, em 1948, consolidaram a divisão da península ao longo do Paralelo 38. No norte surgiu um estado socialista apoiado pelos soviéticos e liderado por Kim Il-sung, enquanto no sul formou-se um estado capitalista apoiado pelos Estados Unidos sob Syngman Rhee. A esperança inicial era que as duas Coreias encontrassem algum equilíbrio político no Leste Asiático, mas rapidamente ficou claro que cada governo considerava o outro ilegítimo. Após uma série de escaramuças de fronteira, em 25 de junho de 1950 a Coreia do Norte invadiu o sul, dando início à Guerra da Coréia. Os Estados Unidos pressionaram o recém-criado Conselho de Segurança das Nações Unidas a autorizar o uso da força para ajudar a Coreia do Sul e lideraram uma coalizão militar sob a bandeira das Nações Unidas. Os norte-coreanos avançaram rapidamente no início do conflito, mas a contraofensiva das forças da ONU mudou o curso da guerra. Quando essas forças se aproximaram da fronteira chinesa, a República Popular da China entrou no conflito ao lado da Coréia do Norte, enquanto a União Soviética forneceu apoio militar e pilotos aos norte-coreanos. O confronto rapidamente se transformou em um perigoso impasse entre potências da Guerra Fria, levando o mundo a temer uma escalada nuclear. Em 1953 foi assinado o Acordo de Armistício Coreano entre Estados Unidos, Coreia do Norte e China, encerrando os combates. A Coreia do Sul, porém, recusou-se a assinar o acordo por não aceitar a divisão permanente da península. Assim, embora a luta tenha terminado, tecnicamente a guerra nunca foi oficialmente concluída. O fim da União Soviética em 1991 e o colapso do bloco socialista não levaram à reunificação coreana, como ocorreu com a Alemanha. A península permanece uma das regiões mais tensas do mundo. Desde o armistício, ocorreram diversas crises: confrontos navais, atentados, incidentes militares e frequentes disputas diplomáticas. Sob forte influência estratégica da China, a Coreia do Norte tornou-se motivo de preocupação internacional ao desenvolver armamento nuclear e realizar testes atômicos e de mísseis balísticos. Já a Coreia do Sul transformou-se em um exemplo de desenvolvimento econômico e tecnológico, com empresas globais como Samsung e Hyundai, consolidando-se como uma das principais economias industriais da Ásia. Mesmo após tentativas de aproximação, como as cúpulas intercoreanas de 2000 e 2018, as esperanças de reunificação continuam incertas. Uma eventual Coreia unificada teria grandes implicações para o equilíbrio de poder no Leste Asiático. A combinação da mão de obra e dos recursos naturais do Norte com a tecnologia, o capital e a infraestrutura do Sul poderia criar um grande potencial de crescimento econômico e militar. Um estudo de 2009 da Goldman Sachs chegou a sugerir que uma Coreia reunificada poderia ter, até 2050, uma economia maior que a do Japão. Enquanto isso não acontece, a península coreana permanece dividida — e cédulas como estas continuam sendo testemunhos silenciosos de uma das mais duradouras tensões geopolíticas do mundo contemporâneo.


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