100.000.000 B.-Pengo – 1946 – Hungria
- awada
- 7 de mar. de 2021
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Atualizado: há 23 horas
A cédula detentora do recorde de zeros - 100.000.000.000.000.000.000 Pengö.


A situação econômica da Venezuela continua difícil, com preços elevados e famílias lutando para manter o consumo básico. Mas, por mais grave que seja, nada se compara ao abismo enfrentado pela Hungria logo após a Segunda Guerra Mundial — um dos momentos mais dramáticos já vividos por qualquer economia moderna. Para entender a escala de um verdadeiro colapso monetário, é impossível não revisitar aquele breve e intenso período entre 1945 e 1946, quando a inflação deixou de ser apenas um número e se tornou uma força que devorava a vida cotidiana. Ao final da guerra, a Hungria estava transformada em ruínas. Fábricas destruídas, ferrovias interrompidas, produção agrícola comprometida e um governo incapaz de financiar a própria reconstrução. A moeda nacional, o pengő, já vinha perdendo valor desde o início do conflito, mas após 1945 passou a derreter em velocidade inimaginável. No início, os comerciantes remarcavam preços semanalmente; depois, diariamente. Em poucos meses, a lógica do dinheiro desapareceu: o valor dos produtos dobrava a cada quinze horas. Ao amanhecer, um trabalhador recebia seu salário; ao anoitecer, ele já não comprava nem metade do que havia comprado pela manhã. Para tentar acompanhar essa destruição silenciosa, o governo começou a multiplicar zeros nas céduls. Primeiro surgiram as cédulas de mil-pengő, depois as de bil-pengő. Quando estas não foram mais suficientes, vieram as de bilhões de bil-pengő, como a vista acima: uma cédula de valor tão alto quanto inútil, equivalente a 100 quintilhões de pengő — e ainda assim incapaz de comprar mais do que alguns centavos de dólar. Os números eram tão absurdos que já não cabiam em algarismos. Era mais simples escrever por extenso do que contar os zeros. Esse caos monetário não durou anos, como outras crises de hiperinflação ao redor do mundo. Foi rápido, brutal e total. Em julho de 1946, o governo húngaro finalmente admitiu o inevitável. O pengő morreu. Em seu lugar nasceu o forint, introduzido com uma taxa de conversão que parecia piada: um único forint equivalia a quatrocentos octilhões de pengő, um número tão grande que a maioria das pessoas jamais conseguiria concebê-lo. Mas essa foi a única forma de restaurar algum tipo de ordem. A narrativa da Hungria serve para lembrar que a inflação não é apenas uma estatística: ela altera, deforma e, às vezes, corrói a própria realidade das pessoas.


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