50 e 100 Trillion Dollars – 2008 – Zimbábue
Atualizado: 16 de out.
Zimbábue, 2007–2008: quando o dinheiro perdeu o sentido.




A crise monetária do Zimbábue entre 2007 e 2008 entrou para a história econômica como um dos episódios mais extremos de hiperinflação já registrados. Em poucos anos, o dólar zimbabuano perdeu praticamente todo o seu poder de compra, os preços passaram a mudar em intervalos cada vez menores e o Banco Central precisou emitir cédulas com valores faciais de milhões, bilhões, e finalmente trilhões de dólares zimbabuanos como visto acima. A hiperinflação porém não surgiu de repente em 2007. Suas raízes remontam à década de 1990 e, sobretudo, ao agravamento dos desequilíbrios econômicos e políticos no início dos anos 2000. Entre os principais fatores estavam os déficits públicos e a expansão monetária; a reforma agrária e a consequente queda de produção e perda de receitas de exportação; a contração econômica, com a queda da produção nacional, o aumento do desemprego e a escassez de produtos; e, o mais importante, a perda de confiança na moeda nacional. A combinação desses fatores alimentou um círculo vicioso: a expansão monetária pressionava os preços, a queda da produção agravava a escassez e a perda de confiança acelerava a circulação do dinheiro. O governo também adotou controles de preços e medidas administrativas que contribuíram para distorções no mercado e para o desaparecimento de mercadorias dos canais oficiais. Segundo estudos do FMI, o pico estimado da hiperinflação foi de 79,6 bilhões por cento ao mês em novembro de 2008. A taxa anualizada calculada a partir desse ritmo chegaria a uma cifra ainda mais extraordinária: cerca de 89,7 sextilhões por cento. Esta estimativa para o pico da crise apontava que os preços dobravam em cerca de 24,7 horas. Na prática, o dinheiro perdia valor tão rapidamente que receber o salário e guardá-lo por alguns dias podia significar uma perda enorme de poder de compra. Comerciantes precisavam reajustar preços repetidamente, enquanto a população procurava gastar o dinheiro assim que o recebia. A situação também produziu um paradoxo: mesmo com cédulas de valores faciais gigantescos, havia escassez de dinheiro físico. A quantidade de cédulas necessária para acompanhar a desvalorização e as dificuldades do sistema bancário não permitiam que o papel-moeda atendesse adequadamente às necessidades cotidianas. A hiperinflação não foi apenas um fenômeno monetário. Ela comprometeu o funcionamento de praticamente toda a economia. O salário dos trabalhadores perdia valor rapidamente, as economias acumuladas durante anos se tornavam praticamente inúteis e as famílias enfrentavam dificuldades crescentes para comprar alimentos e produtos essenciais. A incerteza dificultava a atividade comercial, o planejamento das empresas e a arrecadação de impostos. O Produto Interno Bruto real do Zimbábue caiu aproximadamente 14% em 2008, depois de uma contração acumulada de cerca de 40% entre 2000 e 2007. A crise também comprometeu serviços públicos, incluindo educação, saúde e abastecimento. Em muitas transações, moedas estrangeiras, sobretudo o dólar americano e o rand sul-africano, passaram a substituir espontaneamente a moeda nacional. Era uma demonstração clara de que a população já não confiava no dinheiro emitido pelo próprio país. Finalmente, em fevereiro de 2009, as autoridades reconheceram oficialmente a utilização de várias moedas estrangeiras como parte do sistema monetário. Em abril daquele ano, a emissão e o uso cotidiano do dólar zimbabuano haviam praticamente desaparecido. O dólar americano tornou-se uma das principais moedas utilizadas no país, ao lado de outras divisas autorizadas. O abandono da moeda nacional interrompeu o mecanismo de hiperinflação associado à sua desvalorização. Contudo, não resolveu automaticamente os problemas estruturais da economia, que continuou enfrentando dificuldades de produção, emprego, financiamento e prestação de serviços públicos. O caso do Zimbábue oferece uma lição histórica que vai muito além da raridade ou do valor de catálogo de suas cédulas. Ele mostra que o valor de uma moeda não depende da quantidade de zeros impressos ou da autoridade que a emite. Depende, em grande medida, da confiança em sua capacidade de preservar poder de compra e funcionar como meio de troca. Para o colecionador, a sequência de denominações — dos milhões aos bilhões e trilhões — constitui um registro visual extraordinário da velocidade com que uma moeda pode se deteriorar. Cada nova cédula documenta uma etapa de uma crise econômica e social que atingiu milhões de pessoas. E há uma ironia histórica: o país que precisou imprimir uma cédula de 100 trilhões de dólares terminou abandonando a própria moeda para conseguir restabelecer uma referência monetária mais estável. Essa talvez seja a mensagem mais importante que essas cédulas transmitem: o dinheiro pode ser impresso em valores cada vez maiores, mas a confiança não pode ser fabricada na mesma velocidade. E uma derradeira ironia sobre estas cédulas. As rochas empilhadas e em perfeito equilíbrio representadas no anverso, conhecidas como rochas Chiremba, são uma característica geológica encontrada em muitos lugares do Zimbábue. Elas foram escolhidas como uma metáfora para associar o desenvolvimento econômico com a proteção ambiental após o país obter a sua independência do Reino Unido, declarada em 1965 na então chamada Rodésia governada por brancos, e reconhecida em 1980 na então renomeada Zimbábue. Mas pelo que parece este equilíbrio visto nas rochas não se repetiu nas finanças do país na época em que as cédulas acima foram emitidas.

