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10 Maloti – 1981 – Lesoto

  • awada
  • 12 de mai. de 2022
  • 2 min de leitura

Atualizado: 18 de fev.

Pastores das montanhas: Geografia e identidade nas alturas do Lesoto.



Lesoto é um país marcado por singularidades geográficas, climáticas e culturais. Trata-se do país sem litoral mais meridional do mundo e, de longe, o maior dos três Estados independentes completamente enclavados no território de outro — no seu caso, pela África do Sul. Os outros dois são a Cidade do Vaticano e San Marino, ambos inseridos na península Itálica. Protetorado britânico a partir de 1884, então chamado Basutolândia, o país conquistou sua independência em 1966 sob o nome de Reino do Lesoto, adotando a forma de monarquia constitucional. Sua geografia é predominantemente montanhosa: é o único país do mundo inteiramente situado acima de 1.400 metros de altitude, característica que lhe rendeu o apelido de “Reino do Céu”. Em razão dessa altitude, é também o único país africano onde a neve ocorre com regularidade durante o inverno (junho a setembro), contrariando o estereótipo de calor permanente associado ao continente. O relevo acidentado e a escassez de estradas pavimentadas tornam o transporte animal uma solução prática, especialmente nas áreas rurais. O pônei basoto visto acima, por exemplo, é presença constante nas montanhas do país. Cerca de 65% das terras são destinadas à pastagem, com pequenos rebanhos de ovelhas, cabras e bovinos guardados por homens ou meninos basotos, como o pastor retratado no reverso desta cédula. Vestindo o tradicional cobertor basoto (seanamarena) e o chapéu cônico (mokorotlo), ele passa longas jornadas isolado, zelando para que seu gado não se misture ao do vizinho. Essa dinâmica econômica tem impactos sociais relevantes. Muitos meninos das zonas rurais deixam de frequentar a escola para trabalhar como pastores, o que ajuda a explicar um dado incomum: em 2014, a taxa de alfabetização feminina no Lesoto era de cerca de 85%, enquanto a masculina girava em torno de 68% — uma inversão rara em países em desenvolvimento. No Lesoto, toda a terra pertence formalmente ao Estado, sendo concedidos apenas direitos de uso, arrendamento ou servidão. Esse sistema contribui tanto para a ausência de cercas nas áreas de criação quanto para a centralidade do trabalho dos pastores. Diferentemente de seu vizinho sul-africano, o país não foi submetido ao regime de apartheid, e o povo basoto constitui cerca de 99% da população, tornando-o um dos Estados mais etnicamente homogêneos da África. Em uma sociedade onde riqueza, prestígio e até elegibilidade para o casamento são tradicionalmente medidos em cabeças de gado — “likhomo”, em sessoto —, os guardiões dos rebanhos desempenham papel comparável ao de gestores de patrimônio. Um pastor competente pode receber como pagamento uma cabeça de gado por ano de serviço. Assim, nas encostas frias das montanhas, muitos jovens basotos sonham com o dia em que possuirão rebanhos suficientes para contratar seus próprios guardiões — e, finalmente, deixar de vigiar o gado alheio para cuidar do que será seu.

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