10 Francs – 1950-60 – São Pedro e Miquelão
- awada
- 22 de jan. de 2022
- 2 min de leitura
Atualizado: 1 de mar.
Colbert e o “Le Code Noir”: A legalização da escravidão no império colonial francês.


O personagem retratado nesta cédula é Jean-Baptiste Colbert (1619–1683), influente ministro de Estado de Luís XIV, o célebre Rei Sol. Principal arquiteto das reformas administrativas e econômicas do absolutismo francês, Colbert esteve associado à elaboração do chamado Code Noir (“Código Negro”), conjunto de normas destinadas a regular a escravidão nas colônias francesas. Promulgado em 1685, dois anos após a morte de Colbert, por seu filho, o marquês de Seignelay, o Código Negro consolidou em sessenta artigos a legislação referente à condição jurídica dos escravizados nas possessões ultramarinas da França, especialmente no Caribe. O texto regulamentava aspectos centrais de sua existência: definia sua condição como propriedade, disciplinava compra e venda, casamento, punições, alforia e práticas religiosas. Determinava, por exemplo, que os escravos fossem batizados e instruídos na fé católica, proibia o trabalho aos domingos e feriados religiosos, exigia que fossem alimentados e vestidos por seus senhores e estabelecia limites formais para certos castigos — embora, na prática, tais dispositivos raramente impedissem abusos. O Código também negava aos escravizados personalidade jurídica plena: não podiam possuir bens e sua liberdade dependia de condições estritamente reguladas. Ainda que alguns contemporâneos o tenham visto como tentativa de uniformizar normas e conter excessos, muitos historiadores o consideram um dos mais duros instrumentos legais da escravidão moderna, pois institucionalizou a desumanização e forneceu respaldo jurídico à exploração sistemática de centenas de milhares de homens, mulheres e crianças nas colônias francesas. Durante a Revolução Francesa, a escravidão foi abolida em 1794 em todos os territórios sob domínio francês. Contudo, a medida encontrou forte resistência nas colônias e acabou revogada em 1802, no governo de Napoleão Bonaparte, então Primeiro-Cônsul. A abolição definitiva só ocorreria em 1848, sob a Segunda República, encerrando formalmente mais de século e meio de vigência do sistema legal inaugurado pelo Código Negro. O debate sobre esse legado prolongou-se no tempo. Em 2001, o Parlamento francês aprovou a chamada Lei Taubira, que reconhece o tráfico atlântico e índico de escravos e a escravidão como crimes contra a humanidade. A lei também determinou maior atenção ao tema nos currículos escolares e nas pesquisas acadêmicas, além de instituir o 10 de maio como dia nacional de memória da escravidão. Ao estampar Colbert em sua cédula, a França homenageou uma figura central de sua história administrativa e colonial — mas, inevitavelmente, também remeteu ao complexo e controverso legado jurídico do Code Noir, cuja memória permanece objeto de reflexão crítica.


Comentários