10 e 100 Dinars – 1970 – Argélia
- awada
- 12 de mai. de 2022
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Atualizado: 11 de mar.
Argélia: Entre a terra fértil e a areia radioativa.




Estas belas cédulas argelinas, emitidas na segunda série do Banco Central após a independência da nação em 1962 da França, transmitem uma imagem de riqueza natural e desenvolvimento econômico. Seus desenhos constroem uma narrativa baseada na fertilidade da terra, no equilíbrio ambiental e na expansão da infraestrutura agrícola, comercial e industrial. Por trás dessa aparente prosperidade natural, porém, escondia-se uma realidade bem mais sombria — ligada aos testes nucleares realizados no território argelino durante o período colonial e imediatamente após a independência. A França é um dos cinco Estados dotados de armas nucleares reconhecidos pelo Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares, juntamente com os Estados Unidos, Rússia, Reino Unido e China. Sob o governo de Charles de Gaulle, o país realizou seu primeiro teste nuclear bem-sucedido em 13 de fevereiro de 1960, ao detonar a bomba conhecida como Gerboise Bleue nas proximidades de Reggane, nas profundezas do Saara. Com essa explosão, a França tornou-se a quarta potência nuclear do mundo, depois dos Estados Unidos, da então União Soviética e do Reino Unido. Naquele momento, a Argélia ainda era colônia francesa, o que permitiu a Paris utilizar a região para seus experimentos nucleares. Dos 210 testes nucleares franceses realizados entre 1960 e 1996, a grande maioria — 193 — ocorreu posteriormente na Polinésia Francesa, enquanto 17 foram realizados no Saara argelino. Os quatro primeiros testes no território argelino foram explosões atmosféricas realizadas em Reggane entre 1960 e 1961. Mesmo após a independência argelina, conquistada em 1962 ao término da Guerra da Argélia, a França continuou a realizar testes nucleares no país até 1966, desta vez subterrâneos, no maciço montanhoso de In Ekker. Um artigo confidencial do acordo de paz e independência permitia que a França utilizasse determinadas instalações militares em território argelino por um período de cinco anos — instalações que incluíam os locais de testes nucleares. Um grave acidente ocorreu em um teste realizado em 1º de maio de 1962. Devido à vedação inadequada do poço subterrâneo onde a bomba havia sido colocada, rochas e poeira radioativa foram violentamente expelidas para a atmosfera. O incidente expôs diretamente soldados franceses à radiação. Outras cerca de cem pessoas — entre oficiais, funcionários civis franceses e trabalhadores argelinos — foram atingidas por níveis menores de radiação quando uma nuvem radioativa foi levada pelo vento até o local onde se encontravam. Tanto na Argélia quanto na Polinésia Francesa surgiram, ao longo das décadas seguintes, numerosas demandas por indenização de pessoas que afirmavam ter desenvolvido doenças associadas à exposição à radiação. Durante muitos anos, o governo francês negou que os problemas de saúde relatados por militares e civis estivessem ligados aos testes nucleares. Veteranos franceses e organizações de vítimas argelinas e polinésias travaram longas batalhas judiciais e campanhas públicas exigindo reconhecimento e compensação. Somente décadas depois, sob intensa pressão, a França criou um mecanismo oficial de compensação para vítimas dos testes nucleares. Ainda assim, os resultados foram limitados. Entre os cerca de 50 argelinos que apresentaram reivindicações formais, apenas um — um soldado argelino que havia servido em um dos locais de teste — conseguiu obter indenização. O legado desses testes, contudo, não se restringiu às consequências para a saúde humana. Há também impactos ambientais duradouros. Durante a década de 1960, a política francesa consistia em enterrar resíduos radioativos provenientes dos testes nas areias do deserto, e por muitos anos Paris se recusou a divulgar a localização exata desses depósitos. Em 2020, um estudo intitulado “Radioatividade Sob a Areia”, publicado pela organização ICAN França, instou o governo francês a fornecer à Argélia uma lista completa dos locais de enterramento de resíduos radioativos e a colaborar com a descontaminação das áreas afetadas. A campanha está ligada ao Tratado sobre a Proibição de Armas Nucleares, que prevê assistência às vítimas e medidas de reparação ambiental. Embora o tratado tenha sido aprovado por mais de uma centena de países na Organização das Nações Unidas, nenhuma das potências nucleares o ratificou. A França, em particular, afirma que o tratado é incompatível com aquilo que considera uma abordagem realista e gradual para o desarmamento nuclear. Mais de sessenta anos depois do início dos testes nucleares franceses nos desertos da Argélia, suas consequências continuam a pesar sobre o meio ambiente e a memória coletiva, permanecendo como um tema sensível nas relações entre a nação norte-africana e seu antigo poder colonial.


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