top of page

10 Dollars – 2012 – Fiji

  • awada
  • 20 de abr. de 2021
  • 2 min de leitura

Atualizado: 23 de dez. de 2025

Um cume, duas memórias: O olhar nativo e o olhar colonial.




A imagem de fundo no reverso desta cédula pode parecer familiar aos olhos brasileiros, mas não se trata do Pão de Açúcar, no Rio de Janeiro. O que se vê é o Joske’s Thumb, formação rochosa localizada nos arredores de Suva, capital da ilha-nação de Fiji. Trata-se de uma chaminé vulcânica com cerca de 440 metros de altura, superando ligeiramente os 396 metros do Pão de Açúcar, cuja origem é granítica. O Joske’s Thumb ganhou notoriedade internacional por ter “desafiado” por duas vezes Sir Edmund Hillary, o lendário alpinista neozelandês que, em 1953, alcançou o cume do Monte Everest ao lado do sherpa Tenzing Norgay. Em sua primeira tentativa, Hillary sequer conseguiu chegar à base da montanha, vencido pela densa vegetação tropical. Na segunda, abordou a face incorreta da rocha e decidiu recuar por não confiar plenamente em seu equipamento. Somente trinta anos após sua conquista no Himalaia ele conseguiu, finalmente, atingir o cume do Joske’s Thumb. Muito antes disso, porém, o feito já havia sido realizado pelos nativos iTaukei, que escalaram a montanha por volta de 1864. Os primeiros europeus com registro documentado de alcançar o topo só o fariam em 1932, reforçando o contraste entre o conhecimento tradicional local e a posterior apropriação colonial da narrativa histórica. O nome Joske’s Thumb deriva de Paul Joske, um dos primeiros colonizadores da região de Suva. Em 1870, ele importou maquinário da Austrália com a intenção de estabelecer a primeira indústria açucareira local. O empreendimento, no entanto, fracassou, principalmente devido à baixa qualidade do solo. Após sua morte, a montanha foi rebatizada em sua homenagem, apagando oficialmente sua denominação original. Antes da chegada dos europeus, os iTaukei chamavam o local de “Rama”, também conhecido como “Polegar do Diabo”, pois acreditavam que a formação lembrava um ser tentando escapar das profundezas do mundo espiritual com suas garras. Era um nome carregado de mito, temor e respeito — uma leitura simbólica da paisagem moldada por gerações. Assim, o rochedo permanece como um marco silencioso de disputa: de um lado, o nome colonial que celebra um projeto econômico fracassado; do outro, a designação ancestral, enraizada no imaginário e na cosmovisão local. Ao final, a montanha continua erguida, indiferente às placas que lhe impuseram — mas talvez mais próxima do inferno mítico descrito pelos nativos do que da memória efêmera de seu colonizador.

Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação
bottom of page