10 Dinar – 1994 – Tunísia
Ibn Khaldoun e a “Mudança”: Uma cédula, dois momentos de uma nação.


A cédula acima marca em faces opostas dois momentos da história tunisiana — no anverso, aparece Ibn Khaldoun (1332–1406), um dos mais importantes pensadores nascidos no mundo árabe e um patrimônio intelectual da Tunísia; no reverso, um livro aberto com um significado contemporâneo. Nascido em Túnis, Ibn Khaldoun foi historiador, filósofo e pensador social. Sua obra mais famosa, a Muqaddimah, procurou compreender as causas que levam sociedades e Estados a surgir, prosperar e entrar em declínio. Para ele, a História não deveria ser contada apenas como uma sucessão de acontecimentos, mas objeto de uma análise crítica, buscando explicações para as transformações sociais e políticas. Suas ideias sobre solidariedade social, poder, economia, população e ascensão e queda das dinastias fizeram dele um precursor de áreas que hoje associamos à sociologia, à ciência política e à economia. Sua influência ultrapassou o mundo islâmico e, séculos mais tarde, despertou grande interesse entre pensadores e historiadores ocidentais. Já no reverso a cédula revela uma segunda e muito mais contemporânea dimensão. No centro, um livro aberto traz a data “7 Novembre 1987” e as palavras “Ouverture, Démocratie, État de Droit” — “Abertura, Democracia, Estado de Direito”. A data remete ao episódio que ficou conhecido como “Mudança” ocorrido em 7 de novembro de 1987, quando Zine El Abidine Ben Ali (1936-2019) assumiu o poder após afastar o presidente Habib Bourguiba (1903-2000) depois de 30 anos no poder. O novo regime se apresentou naquele momento como o início de uma nova etapa política, associada à abertura e à democracia. Assim, a cédula coloca lado a lado dois momentos distintos da história tunisiana: de um lado, Ibn Khaldoun, representante de uma tradição intelectual com raízes no século XIV; de outro, a “Mudança” de 1987, celebrada pelo regime de Ben Ali como o começo de uma nova era. Para o colecionador, essa combinação torna a cédula especialmente interessante, já que ela deixa de ser apenas um meio de pagamento para se tornar um pequeno registro de memória histórica e propaganda política, onde a Tunísia de 1994 procurava apresentar simultaneamente seu glorioso passado intelectual e a narrativa oficial de seu presente.

