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10 Denari – 1996 – Macedônia do Norte

  • awada
  • 17 de nov. de 2021
  • 2 min de leitura

Atualizado: 21 de fev.

Entre impérios e mitos: O pavão na antiguidade.



O pavão retratado no verso desta cédula é um detalhe de um mosaico datado dos séculos IV ou V, encontrado no piso do batistério da Basílica Episcopal da antiga cidade de Stobi. Trata-se do mais antigo templo cristão identificado no território da atual Macedônia do Norte, importante centro religioso nos primórdios do cristianismo nos Bálcãs. Embora o pavão seja originário do subcontinente indiano e possua forte ligação simbólica com o hinduísmo, desde a Antiguidade sua imagem adquiriu significados relevantes em regiões muito distantes de seu habitat natural. Na antiga Pérsia e na Babilônia, era associado à realeza e à proteção do poder, figurando inclusive em tronos reais como emblema de majestade e vigilância. Entre os yazidis — grupo etnorreligioso curdo com raízes no antigo Irã — a figura central da fé é Meleke Taus, o “Anjo Pavão”. Considerado uma emanação divina, ele é descrito como um anjo benevolente que, após redimir-se de sua queda, tornou-se o artífice do cosmos, criando-o a partir do ovo primordial. Segundo a tradição, suas lágrimas, derramadas por sete mil anos, teriam apagado o fogo do inferno. No mundo grego, o pavão também ganhou forte carga simbólica. Acreditava-se que sua carne não se deteriorava após a morte, razão pela qual se tornou símbolo de imortalidade. Na mitologia, a carruagem da deusa Hera era puxada por pavões — aves desconhecidas dos gregos até as conquistas orientais de Alexandre, o Grande. O filósofo Aristóteles, tutor de Alexandre, referia-se ao animal como “o pássaro persa”. Segundo relatos, ao contemplar pela primeira vez esses pássaros na Índia, Alexandre teria ficado tão impressionado com sua beleza que ameaçou punir severamente quem os matasse. Um dos mitos mais conhecidos associados ao pavão envolve o gigante Argos Panoptes, servo fiel de Hera, dotado de cem olhos. Ele foi incumbido de vigiar Io, transformada em vaca por Hera ao descobrir o interesse de Zeus por ela. A mando de Zeus, Hermes matou Argos durante o sono e libertou Io. Para eternizar seu vigilante, Hera colocou os cem olhos de Argos na cauda do pavão. Esse rico simbolismo foi incorporado pelo cristianismo primitivo. Em mosaicos e pinturas paleocristãs, o pavão aparece como emblema de imortalidade e ressurreição. Os “olhos” de sua cauda passaram a representar o Deus onisciente e, em algumas interpretações, a própria Igreja. Já a imagem do pavão bebendo de um vaso simboliza o fiel que se alimenta das águas da vida eterna. Assim, por meio da assimilação cristã de tradições persas, babilônicas e gregas — nas quais o pavão estava associado ao Paraíso e à Árvore da Vida — a ave consolidou-se como símbolo de onipresença, imortalidade e vida eterna, justificando plenamente sua presença em um dos mais antigos monumentos cristãos da região.


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