1 Ethiopian Dollar – 1966 – Etiópia
- awada
- 23 de out. de 2021
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Atualizado: 14 de fev.
Da Etiópia à Jamaica: A coroação que inspirou o rastafarianismo.


Quando se fala em rastafáris, é comum que a primeira imagem evocada seja a de Bob Marley (1945–1981), com seus dreadlocks e sua música de forte mensagem espiritual e política. No entanto, no centro simbólico e teológico do movimento está outra figura histórica: Haile Selassie (1892–1975), nascido Tafari Makonnen e conhecido antes da coroação como Ras Tafari — título nobiliárquico etíope que significa “chefe” ou “príncipe”. Coroado imperador da Etiópia em 2 de novembro de 1930, ele adotou o nome Haile Selassie I, que pode ser traduzido como “Poder da Trindade”. Seu título completo — “Rei dos Reis, Senhor dos Senhores, Leão Conquistador da Tribo de Judá” — teve profundo impacto simbólico fora da África, especialmente na Jamaica. É ele o personagem retratado nesta cédula etíope de 1966. O rastafarianismo surgiu na Jamaica na década de 1930, entre descendentes de africanos escravizados, em um contexto de pobreza, marginalização racial e busca por identidade. Trata-se de um movimento religioso e sociopolítico de matriz bíblica, com forte influência do Antigo Testamento e de ideias panafricanistas. Para muitos de seus primeiros adeptos, Haile Selassie era a encarnação divina — o Messias prometido — e a Etiópia representava Sião, a terra prometida. Mas como um imperador africano, a milhares de quilômetros da Jamaica, tornou-se figura central dessa fé? A resposta passa pelas ideias do jamaicano Marcus Garvey (1887–1940), líder do movimento panafricanista e defensor do orgulho negro e do retorno à África. A ele é atribuída a frase: “Olhem para a África, onde um rei negro será coroado; ele será o Redentor.” Embora aja debate sobre a autenticidade literal dessa declaração, é inegável que o discurso de Garvey exaltava a restauração da dignidade africana. Quando a notícia da coroação de Haile Selassie chegou à Jamaica, muitos viram nela o cumprimento dessa expectativa profética. Assim, consolidou-se o rastafarianismo, inicialmente marcado por um nacionalismo negro militante e pela defesa do repatriamento físico para a África. Com o tempo, o movimento diversificou-se. Nem todos os rastafáris consideram Selassie literalmente divino; alguns o veem como líder simbólico ou representante da soberania africana. O “retorno à África” passou a ser interpretado por muitos como um retorno espiritual, uma reconexão cultural e identitária. Práticas como o uso ritual da cannabis — entendida como elemento sacramental — e a música reggae tornaram-se expressões culturais associadas ao movimento, embora não o definam por completo. Em abril de 1966, Haile Selassie visitou a Jamaica. Sua chegada foi recebida por multidões de rastafáris em êxtase, num episódio que reforçou o vínculo simbólico entre o imperador e o movimento. Selassie, contudo, jamais declarou ser divino nem incentivou explicitamente tal crença — postura coerente com sua formação cristã na Igreja Ortodoxa Etíope. A trajetória do imperador — marcada por esforços de modernização da Etiópia, resistência à invasão italiana nos anos 1930 e posterior deposição em 1974 — e sua inesperada centralidade espiritual no Caribe revelam um fenômeno histórico singular: a transformação de um líder político em símbolo global de identidade, resistência e redenção para populações da dispersão de um povo, no caso o africano.


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