1 Dollar – 1974-83 – Austrália
- awada
- 4 de mar. de 2021
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Atualizado: há 5 dias
O funeral ancestral que estampou uma cédula australiana.


Em 1966, o Banco Central da Austrália colocou na cédula de 1 dólar uma imagem, hoje célebre, baseada na obra de um artista aborígene do povo Yolngu, David Malangi (1927–1999). A ilustração, intitulada “O Funeral de Gurrumirringu”, pertence à tradição sagrada de seu clã, o Manharrngu, e retrata a preparação ritual do corpo de Gurrumirringu — conhecido como “O Primeiro Homem” — para a travessia segura de seu espírito ao seu local de descanso. Na versão da lenda preservada pelos anciãos, Gurrumirringu regressava de um dia bem-sucedido de caça. Ao parar para cozinhar parte de sua presa próximo a um poço de água, foi surpreendido por um espírito malévolo, que enviou uma serpente para mordê-lo e matá-lo. Sendo o primeiro de sua linhagem a morrer, sua passagem inaugurou os ritos funerários que seu clã repetiria desde então para guiar as almas ao mundo dos antepassados. A composição da obra de Malangi, reproduzida na cédula, é rica em simbolismos próprios da arte ritual do Território do Norte. No centro, estende-se o corpo de Gurrumirringu, tratado segundo as práticas cerimoniais Yolngu. À sua volta, aparecem cantores rituais e homens do clã, sentados conforme a ordem prescrita pelos ancestrais, além de bagas, plantas e animais associados à narrativa sagrada. O conjunto visual segue a estética tradicional do raquinho (barra-barra) em que linhas cruzadas e padrões geométricos representam energia espiritual e conexões entre os seres. Muito mais do que uma imagem decorativa, o desenho expressa a relação íntima entre mito, território e identidade coletiva dos povos aborígenes australianos. Curiosamente, David Malangi só soube que sua obra tinha sido utilizada na cédula quando ela já estava impressa e em circulação. A ausência de consulta ao artista gerou constrangimento ao Banco Central Australiano, especialmente porque a imagem derivava de uma pintura carregada de significado ritual. Quando o diretor da instituição tomou conhecimento do erro, reconheceu a violação dos direitos autorais e determinou que Malangi fosse compensado financeiramente, além de receber um conjunto oficial de cédulas como gesto de desculpa. Esse episódio tornou-se marco histórico: pela primeira vez na Austrália, os direitos autorais de um artista aborígene foram formalmente reconhecidos e remunerados, contribuindo para abrir caminho para futuras discussões sobre propriedade intelectual, arte indígena e reparação cultural.


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