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1.000 Rubley– 1992 e 50.000 Rubley - 1993 – Rússia, Federação

26 de set.
3 min de leitura

Atualizado: 5 de out.

Duas cédulas, dois Estados, um mesmo rublo.



A transição do dinheiro soviético para o dinheiro da Federação Russa é um dos episódios mais interessantes da história monetária do fim do século XX. Mais do que uma simples mudança de emissor, ela ocorreu como reflexo direto do desaparecimento da União Soviética e da construção de um novo Estado russo. A série “Lenin” de 1992, da qual a cédula de 1.000 rublos acima faz parte, representa justamente esse momento de transição. A União Soviética deixou de existir formalmente em 26 de dezembro de 1991, mas o sistema monetário não podia ser simplesmente desligado no dia seguinte. O rublo continuou sendo utilizado em grande parte do espaço pós-soviético. Além disso, havia enormes estoques de cédulas soviéticas já impressas. Portanto, durante 1992 e parte de 1993, ainda foram colocadas em circulação cédulas que pertenciam essencialmente à tradição monetária soviética. Emitidas pelo antigo Banco Estatal da URSS — o Gosbank —, essas cédulas conservaram a imagem de Vladimir Lenin e o brasão soviético, símbolos de um Estado que já havia desaparecido politicamente. Sua existência não significa que a União Soviética ainda estivesse funcionando nos derradeiros dias de 1992. O que permanecia era o seu sistema monetário, incluindo os estoques de cédulas, os mecanismos bancários e principalmente a moeda — o rublo — que continuava indispensável à economia do país. O contraste torna-se evidente na série “Kremlin & Bandeira” de 1993, representada acima pela cédula de 50.000 rublos. Emitidas pelo recém-estabelecido Banco da Rússia (Bank Rossii), essas cédulas abandonaram a iconografia soviética e passaram a representar a nova realidade política da Federação Russa. Em lugar de Lenin e do brasão da URSS (CCCP em russo), surgem referências ao Kremlin de Moscou, à logomarca do novo banco central russo e à bandeira branca, azul e vermelha, recuperada como símbolo nacional da nação. E este é um ponto que merece destaque, porque em 1992 a Rússia ainda estava definindo seus próprios símbolos nacionais. O Banco da Rússia, porém, já precisava produzir dinheiro próprio. Por isso, suas primeiras moedas e posteriormente suas cédulas constituíram uma espécie de ponte visual entre a Rússia pós-soviética e a futura Federação Russa. O próprio dinheiro passava, assim, a participar da reconstrução da identidade do novo Estado. Outro ponto que merece destaque é justamente a bandeira tricolor branca-azul-vermelha, que na cédula de 1993 aparece sobre o edifício do Senado no Kremlin. Ela não foi uma criação da Rússia pós-soviética. Sua história remonta ao período de Pedro, o Grande, no final do século XVII. Segundo a narrativa histórica oficial russa, a bandeira tricolor era uma tradição que podia ser rastreada até as primeiras experiências marítimas de Pedro I no Mar Branco, três séculos antes. Em 1705, Pedro determinou oficialmente que os navios mercantes russos utilizassem o branco-azul-vermelho, consolidando o tricolor como bandeira naval de uso regular. A diferença entre as duas séries é particularmente significativa porque não houve uma ruptura monetária imediata. O rublo soviético não foi simplesmente retirado de circulação em 26 de dezembro de 1991 para ser substituído no dia seguinte por um novo rublo russo. Durante um período, a velha e a nova realidade coexistiram. Cédulas carregando a memória da ex-URSS continuavam circulando enquanto o Banco da Rússia começava a colocar em circulação suas próprias emissões. Assim, as duas cédulas acima podem ser vistas como duas faces de uma mesma transformação histórica. A primeira olha para o passado: Lenin, o Gosbank e a simbologia soviética. A segunda olha para o futuro: o Banco da Rússia, o Kremlin e a bandeira tricolor nacional. O mais curioso é que ambas pertencem praticamente ao mesmo momento cronológico. Entre elas não existe apenas uma diferença de desenho, mas a passagem de um Estado que deixou de existir para outro que ainda estava construindo seus próprios símbolos.

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