1.000 Francs – 1959-65 – Estados da África Ocidental (Senegal)
- awada
- 20 de out de 2021
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Atualizado: 13 de fev
O Atlântico Negro: A “mancha” que o mar não apagou.


O comércio de africanos escravizados remonta à Antiguidade. Registros indicam que, por volta do século XXVI a.C., o faraó Snefru retornou de campanhas na Núbia — região ao sul do Egito, atualmente dividida entre Egito e Sudão — trazendo milhares de prisioneiros de guerra, que foram submetidos à escravidão no Egito Antigo. Séculos depois, gregos e romanos, ao expandirem seus domínios pelo norte da África e pelo Mediterrâneo, também incorporaram africanos escravizados às suas economias. A partir do século VII, com a expansão islâmica pelo norte do continente, o tráfico transaariano intensificou-se, conectando a África subsaariana ao mundo árabe. Entretanto, foi a partir do século XVI, no contexto da expansão marítima europeia e da colonização das Américas, que o tráfico atlântico de escravos atingiu proporções sem precedentes. Potências europeias passaram a organizar um sistema comercial em larga escala, sobretudo a partir da África Ocidental, para suprir a demanda por mão de obra nas plantações do Novo Mundo. A história do Senegal está profundamente ligada a esse capítulo doloroso da humanidade. Em 1444, navegadores portugueses chegaram à costa senegalesa e estabeleceram-se na Ilha de Gorée, em frente a Dacar. A partir do século XVI, a ilha tornou-se um dos principais entrepostos de envio de africanos escravizados para a Europa e as Américas. Posteriormente ocupada por holandeses, franceses e ingleses, seu nome deriva do termo neerlandês Goede Reede (“bom ancoradouro”). Hoje, a ilha e suas construções históricas são reconhecidas pela UNESCO como Patrimônio da Humanidade e permanecem como um dos mais fortes símbolos da memória do tráfico atlântico. O número exato de africanos forçados a atravessar o Atlântico não é consensual, mas estima-se que entre 10 e 11 milhões tenham sobrevivido à travessia. Calcula-se que cerca de 15% tenham morrido durante o percurso, vítimas de doenças, maus-tratos e das condições desumanas a bordo dos navios negreiros. No contexto atlântico, o Brasil foi o maior destino de africanos escravizados, recebendo cerca de 5 milhões de pessoas ao longo de mais de três séculos. Embora tenha promulgado em 1831 a chamada Lei Feijó — conhecida como “lei para inglês ver” — o tráfico ilegal continuou por quase duas décadas. Somente em 1850, com a Lei Eusébio de Queirós, o comércio transatlântico foi efetivamente reprimido. A escravidão no Brasil perdurou até 1888, quando a Lei Áurea foi assinada pela princesa Isabel do Brasil, encerrando formalmente um dos capítulos mais longos e dolorosos da história brasileira — cujas consequências sociais e econômicas ainda ecoam no presente. Ainda assim, como denunciou o poeta Castro Alves em seu poema O Navio Negreiro, o tráfico de escravos deixou uma “mancha” impossível de ser apagada apenas pelo tempo. Ao clamar — “Ó mar, por que não apagas, com a esponja de tuas vagas, de teu manto este borrão?” — o poeta transformou o oceano em símbolo da consciência humana, lembrando que certas páginas da história não podem ser lavadas pelo esquecimento. Permanecem como advertência e memória, para que jamais se repitam.


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