1.000 Dinares Sérvios – 1941 e 1942– Sérvia
- awada
- 25 de ago.
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O dinar cativo: a economia sérvia sob o jugo do Reich alemão.




Na primavera de 1941, quando os aviões da Luftwaffe reduziram Belgrado a escombros e as tropas alemãs atravessaram o rio Danúbio, a Iugoslávia deixou de existir. No mapa redesenhado por Hitler, a Sérvia, na época um Estado autônomo dentro da Iugoslávia, tornou-se um território administrado diretamente por generais do Reich. E junto com a bandeira, a moeda também mudou. Antes da invasão, a moeda circulante era o dinar iugoslavo, símbolo da unidade do reino. Com a dissolução da Iugoslávia, este sistema ruiu. Cada região incorporada ao novo mapa balcânico passou a adotar a moeda da potência ocupante ou aliada: o kuna foi criado no Estado Independente da Croácia, um estado-fantoche da Alemanha Nazista; o lev búlgaro foi introduzido na Macedônia ocupada pela Bulgária; o lek albanês no Kosovo anexado pela Albânia fascista, entre outros. Os sérvios, acostumados a pagar com o velho dinar iugoslavo, viram de repente suas cédulas serem marcadas com carimbos negros: sinais grosseiros, mas suficientes para dizer que aquela cédula só valia dali em diante na “Sérvia ocupada”. Era a primeira etapa de um processo de submissão econômica. O dinheiro que carregava o orgulho de um reino desfeito transformava-se em papel vigiado pelos alemães. Poucos meses depois, chegaram as primeiras cédulas novas, como as duas vistas acima, impressas com a inscrição “Narodna Banka Srbije” (Banco Nacional da Sérvia). À primeira vista, buscavam transmitir familiaridade: camponesas em trajes tradicionais, figuras de colheitas, símbolos de trabalho honesto. Mas por trás da iconografia folclórica, escondia-se a mão do Reichsbank. O valor do novo dinar sérvio não era definido em Belgrado, mas em Berlim: 250 dinara para cada reichsmark alemão. Essa paridade artificial servia a dois propósitos. Primeiro, garantir a conversão vantajosa para os alemães ao extrair matérias-primas, alimentos e bens industriais da região ocupada. Segundo, permitir que os soldados e funcionários do Reich utilizassem seus salários em reichsmarks para comprar produtos locais a preços irrisórios, drenando riqueza sérvia para a Alemanha. Mas para o povo sérvio essa taxa rígida pesava como uma corrente invisível. O camponês que recebia dinares pela venda do trigo logo descobria que, quando tentava comprar ferramentas ou alimentos ou vestimentas, o dinheiro já não bastava. A cada nova emissão, a desconfiança aumentava. Entre 1941 e 1942 as cédulas de 10, 20 e 50 dinares foram dando lugar às de 100, 500 e 1000 dinara, cada vez mais coloridas, mas cada vez menos respeitadas. Com a inflação correndo solta, o povo começou a se proteger: uns guardavam os eventuais reichsmarks recebidos escondidos sob tábuas do assoalho de suas casas, outros recorriam ao ouro de família, e muitos se voltavam ao velho escambo — um quilo de farinha por um par de sapatos, alguns ovos por um punhado de sabão. No cotidiano, o dinar sérvio era aceito porque era imposto, mas não era confiável. Para muitos, ele simbolizava o rosto mais frio da ocupação - a prova de que até o ato de comprar pão estava submetido à vontade do invasor. Quando, anos depois, os partidários comunistas liderados por Josip Tito junto com o exército soviético expulsaram os alemães e proclamaram a libertação da Iugoslávia, a abolição do dinar sérvio foi recebida quase como uma catarse. Decretou-se a taxa de conversão de 1 novo dinar iugoslavo para cada 20 dinara colaboracionista. Mais do que uma medida econômica, era uma sentença contra o dinheiro que havia acompanhado a fome, o saque e a submissão. Em resumo, a transição monetária na Sérvia ocupada entre 1941 e 1942 não foi apenas uma mudança técnica de cédulas, mas um instrumento de dominação econômica. O novo dinar sérvio, subordinado ao reichsmark alemão, materializava o esvaziamento da soberania sérvia e o uso da moeda como ferramenta de exploração colonial dentro da própria Europa.


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