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1.000 Dinara– 1955 – Iugoslávia

21 de jan.
2 min de leitura

Atualizado: 19 de out.

O “Sorriso do Socialismo": glória pública e miséria privada.



O personagem retratado nesta cédula não foi um político, artista ou cientista, mas um trabalhador comum. Arif Heralić (1922–1971) era um metalúrgico bósnio de origem cigana que ganhou notoriedade ao ser fotografado, em dezembro de 1954, por Nikola Bibić para o jornal sérvio "Borba" (Luta). Bibić o conheceu durante uma visita à Siderúrgica de Zenica — então um dos símbolos da industrialização socialista — para uma reportagem sobre trabalhadores-modelo. A expressão espontânea e sorridente de Heralić, que trabalhava em um alto-forno, foi rapidamente interpretada como um emblema popular do progresso e da prosperidade prometidos pelo socialismo iugoslavo. A fotografia circulou amplamente e, pouco tempo depois, foi escolhida para estampar a cédula de 1.000 dinares de 1955, reforçando visualmente as virtudes do regime, o ideal do trabalho coletivo e a construção de uma sociedade igualitária. No contexto do realismo socialista, imagens como essa não eram fortuitas. O próprio Stalin descrevia os artistas desse movimento como “engenheiros de almas”, responsáveis por moldar representações capazes de projetar uma realidade utópica, centrada no avanço industrial e na dignificação do trabalhador. No entanto, o símbolo coletivo nem sempre correspondia à realidade individual. Apesar de sua imagem circular pelas mãos de milhões de iugoslavos, a vida pessoal de Heralić foi marcada por dificuldades e tragédias. Pai de 11 filhos, ele enfrentou sérios problemas de saúde mental e alcoolismo. Incapacitado para o trabalho nos seus últimos anos, Heralić faleceu em extrema pobreza em Zenica, aos 49 anos de idade. Em 1967, sua família tentou obter uma compensação pelo uso de sua imagem, sem sucesso: sua fotografia era considerada propriedade do Estado. Sua história ganhou maior repercussão após a exibição, em 1968, do documentário "Desvalorização de um Sorriso", pela emissora pública, que provocou debates sobre o tratamento dispensado pelo Estado iugoslavo aos trabalhadores exaltados em suas propagandas. Com a dissolução da República Federal Socialista da Iugoslávia, a partir de 1992, a imagem de Arif Heralić voltou a circular, agora de forma irônica e crítica, como um símbolo das contradições e falhas sociais do regime extinto. Assim, a cédula que um dia celebrou a promessa de prosperidade coletiva revela, em retrospecto, o abismo frequente nos regimes totalitários entre a imagem pública cuidadosamente construída e a realidade vivida pelos indivíduos que ela pretende representar.

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