50 K.Pfeniga – 1998 – Bósnia e Herzegovina
- awada
- 24 de jun. de 2021
- 2 min de leitura
Atualizado: 14 de jan.
O dinheiro como espelho das tensões étnicas.




É curioso pensar que um país possa ter duas cédulas de mesmo valor em circulação, mas com designs diferentes. No entanto, foi exatamente isso que ocorreu na Bósnia-Herzegovina entre 1998 e 2002. Nesse período, houve uma emissão destinada à parte croata-bósnia do país e outra à parte sérvia-bósnia. O design geral das cédulas é idêntico, e tanto o nome do Banco Central quanto a denominação aparecem escritos em alfabetos latino e cirílico. A diferença está na hierarquia visual: nas emissões croatas, as inscrições em alfabeto latino aparecem no topo, enquanto nas emissões sérvias essa posição é ocupada pelas inscrições em cirílico. Das sete denominações emitidas nessa série, seis apresentam personagens distintos no anverso, como se observa nas duas cédulas acima. A explicação para essa duplicidade está na complexa e historicamente conflituosa relação entre sérvios, croatas e bósnios muçulmanos na região dos Bálcãs. A República da Bósnia e Herzegovina foi criada em 1992, após o colapso da Iugoslávia socialista no início da década de 1990. A independência do novo Estado, apoiada principalmente por bósnios muçulmanos e croatas, foi rejeitada por grande parte da população sérvia, que defendia a permanência junto à Iugoslávia. Essa divergência resultou em uma violenta guerra civil entre abril de 1992 e dezembro de 1995, com mais de dois milhões de deslocados e cerca de 100 mil mortos. O conflito foi encerrado com a assinatura dos Acordos de Dayton, em dezembro de 1995, negociados com mediação internacional. Desde então, forças de paz internacionais permaneceram no país para garantir o cumprimento do acordo. Ficou estabelecido que a Bósnia-Herzegovina seria um Estado composto por duas entidades politicamente autônomas: a Federação da Bósnia e Herzegovina, habitada majoritariamente por bósnios muçulmanos e croatas, e a Republika Srpska, de maioria sérvia. O acordo também instituiu um sistema de presidência tripartite, com um representante eleito de cada um dos três principais grupos étnicos. Assim, essas cédulas revelam que o dinheiro, longe de ser apenas um instrumento econômico, pode tornar-se um espelho das fraturas políticas e identitárias de um país, carregando em seu próprio desenho as marcas das tensões étnicas que moldam sua história e sua convivência social.


Comentários